Flor de concreto

Não sou fixa
Sou moldável
Maleável
Mas sem perder meu compasso

Sou constante
De uma forma
Mutável

Sou flor que cresce no chão de concreto
Na pequena fissura
Tomo forma

Cresço na chuva
No sol
Na neblina das manhãs gélidas
Nas intempéries cotidianas

Timidamente sobrevivo
Para alguns, invisível
Para os que veem mais de perto, resiliente

Entre tantas pessoas
e coisas e vidas e elementos
Sou a flor no concreto
Que, entre tantos caminhos
Escolheu ser flor

Oceano

Nos braços da ansiedade
Naufrago em meus medos
Sou refém dos anseios
Em um horizonte sem desejos

Nado a esmo
Sem remo
A imergir em pensamentos

Sou turva, fluida
Sou oceano inexplorado
Em águas que não sei nadar

Constantemente

A gente engole tanto sapo, tanta frustração, simplesmente por ser como somos.
A gente se acostuma a ouvir não, passa a temer o não, a odiar o que não tem.
A gente escuta que temos que mudar nosso jeito, que temos que ser igual fulano.
Somos constantemente criticados por não sermos igual a todos os outros, mas já tem tanta gente igual e vazia por aí.
Falta paixão, inspiração, falta autenticidade para todos que criticam nosso jeito diferente.
E aí é que tá.
O mundo já tem muita gente igual.

Um haicai

Rosa avermelhada
As pétalas que desabam
Colorem o chão

Plausível

Já faz tempo que não me sento e encaro a página em branco. Não foi por falta de ter o que desabafar, isso garanto. Mas tampouco venho aqui me explicar sobre o que fiz, falei ou – muito provavelmente – deixei de fazer nos últimos tempos. Sabe, o papel não me julga. E, diferente do mundo real, a luz branca e vazia não me amedronta.
Lá fora tudo é incerto, pesado e sufocante.
Aqui? Apenas meus pensamentos que – por fim! – podem ganhar vida. Não sou de dizer muitas palavras por aí. Aliás, tenho andando mais calada que de costume. Fechada em uma página, não em branco, mas com rascunhos, rasuras, ranhuras e dor... quanta dor.
Aqui posso ficar calada, se quiser. E ainda tenho a sua companhia. Ou não.
Um final plausível sempre me vem à mente. Charles Bukowski. Incompreendido como eu? Não sei. Com uma cacetada de problemas? Probably. Sempre penso que deveríamos ter este lugar para onde ir. Quando o peito não consegue se acalmar, quando a mente não consegue se calar, quando o mundo e tudo o que há nele se torna pesado demais. Quando a imensidão do lado de fora e a imensidão do lado de dentro são mais fortes que o vazio que eu tento ignorar.

Inquebrável

Acostumei-me a ser um alvo, a estar por baixo, a pensar que poderia ser pior. A acreditar que não merecia, que não conseguia, que nunca seria suficiente. Tive a autoestima esmagada, massacrada.
Me culparam por isso também.
Você deveria ser mais forte. Mais confiante. Falar mais alto. Mais incisiva. Mas eu estava quebrada e não podia juntar meus cacos. Demorou um tempo para entender que algumas pessoas sempre irão tentar pisar em você. Às vezes nem é pessoal, elas só precisam te pôr para baixo para se sentirem melhor. Custei a entender que essa era uma característica deles, e não minha.
Eu era eu, mesmo com minhas imperfeições. Com meus defeitos cruéis. Com meus monstros enraizados. Eu nunca precisei pisar em ninguém. Mesmo com meus medos, segui em frente. Mesmo com minhas inseguranças, continuei procurando o que quer que precisasse encontrar. E encontrei algumas coisas pelo caminho.
Continuei caminhando, um passo por vez.

Além da dor

Vivemos tentando aliviar a dor. Buscamos conforto, alívio, escapes. Não queremos sentir, mas esquecemos que somos dor. Somos dor o tempo todo. E não há como fugir. A vida vai nos machucar. As pessoas muito mais. Viver não é enfrentar a dor: é doer. Mas tudo bem, a dor passa. Assim como o tempo. É tudo uma questão de relatividade.
Estar acima da dor não é não sentir, mas sim saber que dias e dores passarão, assim como também irão nos moldar e transformar: em nós mesmos, no melhor de nós ou, talvez, em apenas humanos. O que já é suficiente. E que possamos continuar vivendo, com ou sem dor, um dia após o outro...

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Criado por: Andréa Bistafa.
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