Além da dor

Vivemos tentando aliviar a dor. Buscamos conforto, alívio, escapes. Não queremos sentir, mas esquecemos que somos dor. Somos dor o tempo todo. E não há como fugir. A vida vai nos machucar. As pessoas muito mais. Viver não é enfrentar a dor: é doer. Mas tudo bem, a dor passa. Assim como o tempo. É tudo uma questão de relatividade.
Estar acima da dor não é não sentir, mas sim saber que dias e dores passarão, assim como também irão nos moldar e transformar: em nós mesmos, no melhor de nós ou, talvez, em apenas humanos. O que já é suficiente. E que possamos continuar vivendo, com ou sem dor, um dia após o outro...

Julgamento

Atrás das janelas
O silêncio como um pêndulo carrega
A angústia da espera

Lá fora, o dia se faz treva
A tempestade impera
Tingindo de piche o céu

O medo se faz réu
O juiz se torna eu
A dor julgada
Por um crime que não cometeu

Sentença declarada
A mente se cala, e sente
Prisão perpétua
Para uma alma inocente

Palavras que eu nunca disse

Assim como meu caráter
Não tive a oportunidade
De escolher minha personalidade
Já veio de fábrica, quando nasci

Se pela minha boca não saem
Assim tantas palavras
É porque penso mais do que cabe em minha alma
E prefiro esculpi-las no papel a berrá-las por aí

Se não nasci com o dom da extroversão
Não cabe a você
Nem à sua regra
A minha introversão

Ser diferente não me intitula
Não sei por que ainda me rotula
Se nem eu mesma sei quem sou

O preconceito tem as mais diversas faces
Ou será que isso é só miragem
De uma alma em desalento?

Não peço que me entenda
Tampouco compreenda minha dor
Desejo apenas que respeite
A pessoa que existe embaixo dessa pele

Pois é assim que sou

Não se deixe julgar

Todo mundo é bom em alguma coisa. Alguns com contas, outros com palavras, outros em persuadir e alguns em desenhar. Tem gente que é boa em programação, outros são ótimos em ensinar. Você pode ser bom em organizar coisas, planejar viagens, atuar, cozinhar, maquiar ou costurar. Pode ser bom de lábia, um líder nato, excelente ouvinte, bom em aconselhar, em construir coisas, em escrever poesias ou em vender roupas. Todo mundo é bom em algo, naquilo que ama, naquilo que faz sem se sentir obrigado. Lembre-se sempre disso, principalmente quando te julgarem por algo que não é a sua praia. Muitas vezes temos que fazer o que não sentimos afinidade porque é preciso, por trabalho ou simplesmente necessidade. 
E podemos ser bons ou não. 
Não se julgue. 
Não se deixe julgar. 
Não nascemos sabendo tudo e, literalmente, não somos obrigados a sermos bons em tudo. Podemos ser péssimos em algumas coisas, mas, tudo bem, se ainda formos bom no que faz nosso sangue pulsar. 


Papel e caneta

Vomitava sonhos
Na forma de palavras
Desordenadas, reordenadas e modeladas
Como a vida que moldava

Inspirava a poesia oculta
Nas entrelinhas do dia a dia
Aspirando a verdade humana
Sob as máscaras escondidas

Doces palavras tragadas
Amargas letras cuspidas
Escarrava nas vírgulas a dor
Nas reticências a angústia sofrida
Mas os pontos finais reservavam-se sempre
Ao lado bonito da vida

No papel, se reescrevia

Aparência

Olhando a figura a minha frente
Reparo em sua falta de jeito
Ah, com o escárnio encho meu peito
Sua formosura ao chão é rente

A deselegância faz-me descrente
Tem aspecto de algo mal feito
A cor da pele, dos olhos, eleito
Tão estranho, errado, diferente

Com o padrão tão distante do certo
De uma sociedade perfeita
Tento olhar o estranho de perto

E vejo a imagem tumefeita
Refletida em espelho incerto
Era eu a pessoa imperfeita


Essência

Perdemos nossa essência pelo próprio medo de perdê-la. É assustador. Quantas coisas fazemos por obrigações impostas? Desde a roupa que vestimos até o trabalho que exercemos. Quanto do que fazemos realmente representa quem somos?
Existem escolhas demais entre os nossos sonhos e o caminho para realizá-los. E sempre há a dúvida se realmente estamos no caminho certo. Ou se existe um sentido para nós nessa vida.
Ou se apenas alguma mísera coisa faz sentido.
Mudamos o tempo todo com a certeza de que o que realmente importa continuará conosco. Mas tenho minhas dúvidas. Com todas as pedras no caminho é difícil não deixar um ou outro sonho de lado. Será que continuaremos a ser nós mesmos enquanto compreendermos tão pouco da vida?
Existem conflitos demais, complexos demais, infinitos demais, coexistindo dentro e fora de nossos universos.
E em meio a tantas incertezas, confesso que ainda sequer sei quem sou...
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Criado por: Andréa Bistafa.
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